Dia 5 - Pontevedra - Caldas de Reyes - 6 de janeiro

Noite maravilhosa no hotel, café da manhã muito bom. Saímos às 9, junto com o sol.
Esse foi o dia menos sofrido. Esqueci de ligar o Strava até 2,5km. Mas depois liguei e acompanhamos a caminhada. Precisamos cuidar para comer de tempos em tempos, mas as vezes não dá certo.
Hoje estava muito frio, estava 1° quando saímos, não passou de 10 nem com sol, mas seguimos bem animados.
Já no km 5 encontramos Iolanda, uma catalã bem querida, peregrina experiente. Caminhamos um tempo juntos, tiramos fotos, apreciamos a floresta, os musgos, o gelo que havia na vegetação. Mais uma vez, havia um riozinho passando pelo caminho de tempos em tempos. Hoje além de lindo, foi mais leve, tranquilo. Não tinham subidas muito íngremes, nem descidas fortes.
Nos separamos da nova amiga, o que é bem natural no caminho. Cada um segue seu momento, para se precisa, segue sem culpa.
Paramos em um café ótimo ao meio dia. Primeiro aberto .
Aqui eles servem junto com o café, croissant, churros, bolos. Sempre tem uma coisa boa de cortesia. E é uma benção para quem caminha por horas.
Seguimos andando e admirando a paisagem. A cada momento tem uma coisa linda.
Paramos em um auto service quase chegando, mas vimos como um oásis, pois tinha cadeiras ao sol, lanchinhos e bebidas. Em 3km estávamos no nosso destino.
Calda de Reis é linda! Um lugar de termas e muita água.
Chegamos cedo para o descanso... mas acho que estou ficando viciada nessa caminhada.
Ah, comi a sopa mais cara da minha vida. Mas pelo lado bom, espantou meu frio
Detalhe de hoje: pets! Nos lugares que passamos as casas são chácaras pequenas. Muitas tem galinhas e elas chamam atenção: são gorditas e brilhosas. Muitos cães e gatos soltos, que vem nos cumprimentar, ou presos que vem latir. No 2° dia um cachorro que era maior que eu saltou de um muro e veio em nossa direção: pedir carinho, mas nos assustou no começo. Ainda vimos burros, vacas e bodes. A zona rural é bem organizada, muito bem cuidada.
Dia 6 - Caldas de Reis - Padron - Escravitud -28km - 7 de janeiro
Hoje acordamos mais cedo. A Pension era bemmmm boa. Um apartamento no 4º andar, com tudo de bom. Tv, ar quente, banho ótimo. Um detalhe de todos os hostel até agora: ninguém fica a noite. Ou eles dão uma senha para as fechaduras eletrônicas ou chaves que você deixa numa caixa postal. É muito civilizado.
Saímos às 7:30, mas ainda era noite escura. Fomos de mansinho, pois estava frio. Frio, frio, vento gelado e...neve! Eu nunca tinha visto! Tá, não foi uma neve de deitar para fazer anjo, ou jogos com bolas. Mas uma neve fininha, um tapete branco ao longo do caminho. Muito lindo!
Não tomamos café até o 6º km. Da um bad caminhar com frio e fome. Não tinha nada aberto, nada. Chegando em uma vila na beira da rodovia, vimos a placa de um bar/café e resolvemos seguir até lá. Desviava uns 200m do caminho, mas lá na frente voltava. Estava aberto e foi ótimo! Pãozinho quente e café são ouro para o peregrino.
Outro aspecto interessante e ótimo: os banheiros de TODOS os lugares que passamos estavam muito limpos. Qualquer birosca ou bodega tem papel e estava limpinho.
Seguimos na floresta congelada, com vista linda de folhas secas.
Encontramos 2 peregrinos no caminho e o cara que peregrina ao contrário (deve ir a Fátima) com um burro e um cachorro muito bravo. Até Padron foi muito delicioso. Almoçamos igual gente normal, ao meio dia, saladinha e empanadas.
Seguimos mais 9km até o hostel. Pesou, confesso, mas amanhã adiantamos muito a vida!!! Apreciamos a visita, vimos muitos gatinhos e conversamos. Foi doloroso e recompensador. Mais um dos paradoxos do caminho. Deu uma alegria, pois chegaremos em Santiago em 16km!!!
O hostel é bem simples, mas arrumadinho. O dono ama o Brasil e falou um portunhol conosco e aqui tem o necessário, bebidinhas, café da manhã.
Amanhã será a chegada... quase não acredito que andamos 97km e estamos chegando. Mas um clichê que não dá para escapar é que o que realmente importa é o caminho, não o destino final. E que caminho!!!
Dia 7 - Escravitud a Santiago de Compostela
O dia despertou tranquilo, saímos às 9, junto com o sol e após um café da manhã delicioso, feito com carinho pelo dono do hostel. Esse foi o hostel mais simples, mas mais aconchegante que estivemos. O dono, Luciano, nos tratou impecavelmente. O lugar tem ovelha, galinhas, lindos cavalos. Ontem chegaram patos. É um hostel ecológico, com plantação, bichinhos e excelente hospitalidade. Um lugar muito especial.
O começo do caminho foi animado, cheio de energia. Depois foi batendo o peso de tantos dias de caminhada, cansaço, algumas dores. Seguimos firmes. Paramos a 8km de Santiago para tomar um café/chá na casa de cultura do pueblo. Seguimos. A cabeça começa a falar para o corpo que está acabando e o corpo começa a se entregar. Porém o mesmo desânimo (acho que fora a subida e descida de Redondela , não tivemos outros momentos de desânimo) se transforma numa emoção incrível quando chegamos. Eu disse para mim mesma: “aff, claro que não vou chorar, vai ser pura alegria”.

Mas na hora que vi a catedral e liguei para o Thiagão para mostrar que tinha conseguido, só se via pinguinhos de lágrimas escorrendo no cantinho do óculos de sol. Sensação de sonho realizado! De não acreditar que realmente aconteceu...
Com 15 anos comecei a sonhar com El Camino, estudei, li, sonhei um dia fazê-lo e, com o passar dos anos, simplesmente esqueci. Nunca mais havia pensado nisso, virou um plano H, I, J, sei lá, bem longe.
Mas em outubro Dimitri me ligou e, em uma conversa, acordou aquele sonho de menina, menina que após tantas experiências boas e ruins e duras e terríveis e lindas e impossíveis e incríveis na vida, havia simplesmente hibernado. E o sonho começou a ser planejado, com detalhes sendo analisados, melhores lugares, estrutura, suplies, tudo que deveria ser pensado para que fosse o melhor possível.
E hoje, após a chegada na catedral, a emoção de conseguir finalizar, o almoço perfeito e o checkin no hostel 5 estrelas (sim!!! Existem hostels melhores que muitos hotéis) concluímos que o sonho se realizou da melhor maneira possível para o momento.

Obrigada Miti!
Obrigada ao meu Thiago, que viabilizou a minha vinda, cuidando impecavelmente da Laurinha!
Obrigada ao querido e milagroso Santiago de Compostela, o peregrino persistente em levar a palavra!

P.S. Para quem está acompanhando detalhes do caminho, vou fazer mais 1 postagem: uma com dicas de coisas que li por aí que deram certo e que não deram, sobre o que trazer, caminho no inverno, etc;

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